Dia Internacional da Mulher: O machismo no ambiente acadêmico

Estudantes de psicologia da Ufes, em 2016, denunciando o machismo na Universidade (Crédito Fernando Madeira/ A Gazeta)
- Oi! Estou produzindo uma matéria sobre machismo no ambiente acadêmico. Você conhece alguma mulher que já sofreu?
- Eu
- Eu
- Eu
- Todas nós (somos em 40)

A resposta para a pergunta assusta. São tantas. Tantas histórias relacionadas a “você não é capaz por ser mulher”. Outras tantas ligadas a assédio. No Dia Internacional da Mulher, o Fique Ciente apresenta relatos de mulheres que sofreram e sofrem com o machismo no ambiente acadêmico, mesmo fazendo ciência nas melhores Universidades do País.


Campanha contra machismo na Universidade realizada pela UFJF, em 2016

Cargos de liderança na ciência ainda são pouco ocupados por mulheres

O potencial das mulheres ainda é pouco aproveitado na ciência. No Brasil, dados sobre o número de bolsas de pesquisa pagas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostra um equilíbrio entre o número de bolsistas homens e mulheres na iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, com mulheres sendo a maioria em todas as modalidades.
A diferença se dá na bolsa em Produtividade em Pesquisa (PQ). Em 2015, 9.092 homens receberam esta bolsa, enquanto apenas 5.013 mulheres foram contempladas. A bolsa PQ é uma das modalidades mais valorizadas e é concedida para os pesquisadores com mais publicações em Qualis A.

O levantamento mostra ainda que as mulheres são as que menos solicitam bolsas para o exterior e são minoria nas áreas de exatas, ciência da terra, engenharia e computação.

Em 2016, durante a solenidade do 11º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero, do CNPq, a presidente substituta do órgão, Glenda Mezarobba, reconheceu o problema. "Se voltarmos nossos olhares a outros indicadores do CNPq as mulheres são minorias nas bolsas de produtividade em pesquisa, o mesmo ocorre em outro dos mais importantes programas do País que é o Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia onde apenas 18 dos 125 INCTs são comandados por mulheres", concluiu.

Pesquisa internacional aponta que ainda na infância as mulheres são afastadas do universo cientifico. Crescidas, são prejudicadas na vida acadêmica. Estudo publicado na revista Science mostra as possíveis causas da sub-representação feminina na ciência e na engenharia.
Durante a pesquisa, foi perguntado a meninos e meninas se acreditavam que uma pessoa descrita para eles como inteligente era de seu sexo ou do aposto. Aos 5 anos de idade, as crianças  não observavam diferença. A partir dos 6 ou 7, a probabilidade de que as meninas considerem a pessoa brilhante como sendo do seu sexo cai.

Os pesquisadores responsáveis pelo trabalho consideram que essas ideais sobre gênero e inteligência, que aparecem em uma fase inicial da infância, podem afastar as meninas das carreiras em ciência e engenharia.

As poucas que conseguem quebrar esse ciclo, quando ingressam em algum curso da chamada “ciência dura” sofrem preconceito dos colegas e professores. É o caso de Maria Clara*, que ingressou no curso de física aos 16 anos. Ela conta que desde o início do curso, os garotos da turma já classificavam as meninas como “bonitas”, “barangas”, “legais”, mas nunca como colegas de fato. “Os veteranos e calouros trocaram telefones, mas quando eu troquei números, todos decidiram que eu tinha segunda intensões. Meus próprios ‘colegas’ isolavam a mim e outras garotas no curso, ou porque não éramos boas o suficiente para os trabalhos em grupo, ou para que não tirássemos notas tão boas (nunca entendi o porquê). Quando muito, me aceitavam no grupo e me classificavam como ‘não é uma garota, é um físico-fêmea’”, conta.

Os professores também compartilhavam as ideias machistas dos alunos. “Houve professor que recomendou que eu fizesse arquitetura, porque tem um pouco de números e é ‘mais feminino’. Houve professores que, ao ver meninas na sala dizia ‘vou chamar vocês de seno e cosseno (as meninas). Por que elevando ao quadrado e somando, dá um’. Houve professor que trocaria um jantar por décimos a mais na prova. Houve professor que disse que deveríamos (as meninas) sentar mais a frente, porque ‘como as mulheres têm mais dificuldade com matemática’, nós tínhamos dificuldade de entender a matéria e precisaríamos nos esforçar mais. Quase nenhum dos meus professores se dirigia a mim quando falava. Ainda que eu tivesse feito a pergunta, respostas e explicações eram sempre direcionadas aos garotos, como se eu não pudesse entendê-las”, relembra.

Ao ingressar na faculdade de engenharia civil, o mesmo problema. “Não me deixavam sequer tocar os circuitos nas aulas de laboratório. Tiravam da minha mãe, me colocavam para anotar: ‘Sua letra é mais bonita’. Diziam – meus pais, inclusive – que ‘peão nenhum respeita mulher na obra’”, afirma.
No mestrado em física, Maria Clara* se deparou com outro problema: artigos cujo autor principal é mulher, tem menos chance de ser publicado. “Deparei-me com a realidade no ‘nome de homem no artigo’. Um artigo, quando submetido por mulheres era recusado, mas se o autor principal vinha a ser um homem, o mesmo artigo, sem alterações, era aceito na mesma revista. Dos cerca de 100 professores nos dois departamentos de física em que estive, apenas cinco eram mulheres. E por muito tempo eu quis ser igual. Achava que queria ser homem, até entender que na verdade, eu queria o direito à mesma liberdade e ao mesmo espaço que eles”, afirma.

*Maria Clara é um nome fictício, para a cientista que prefere não ser identificada. 

Dia Internacional da Mulher é dia de luta
Assédio
Outro problema grave destacado pelas mulheres ouvidas pelo Fique Ciente é o assédio.

 “Nossa, como seus pés são bonitos. Tenho fetiche por pés”.

“Que tal sairmos para jantar? Como você é linda”. 

As frases foram ditas por professores e orientadores de graduação e pós-graduação a meninas que preferem não ser identificadas.  Elas mostram como o machismo é presente também no ambiente acadêmico – que deveria ser de pluralidade e de emancipação.
As vítimas se sentem impotentes e com medo de denunciar, afinal, estão lidando com professores e pesquisadores respeitados em sua área e com anos de atuação nas universidades.

Neste Dia Internacional da Mulher, o Fique Ciente engrossa o coro pelos direitos das mulheres e importância da ocupação de todos os espaços por elas (por nós), inclusive o da ciência e o de liderança de instituições e grupos de pesquisa.

Que seja um dia de luta para todas nós!




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