Machismo: Mulher na cozinha? Só em se for na de casa


Você pode não ter assistido a final do programa MasteChef Profissionais, exibida em 13 de dezembro de 2016, na TV Band, mas certamente já sabe a chef Dayse Paparoto venceu a primeira edição do reality desbancando o chef Marcelo Verde.

A polêmica desta edição do programa foi o machismo, sofrido pelas participantes, principalmente por Dayse, a vencedora. Em um dos episódios, o participante Ivo Lopes chegou a dizer para Dayse “varrer o chão”.

Durante a final, a apresentadora Ana Paula Padrão parabenizou a chef por “ser mulher e se destacar, como eu, num ambiente muito machista”. Paola Carosella, jurada do programa, também tocou na questão. “Você escolheu uma profissão dominada pelos homens, como eu e como a Ana Paula. Não é nada fácil. Às vezes, a gente tem que ouvir umas idiotices que eu vou te falar. Você não está aí por ser mulher, você está aí por ter um talento inacreditável”, disse.

O machismo no ambiente da gastronomia também foi comentado pela chef pernambucana Danielle Dahoui, proprietária de sete restaurantes e apresentadora do programa televisivo Hell’s Kitchen, exibido no SBT. “'Diziam que, no máximo, eu ia cozinhar para marido rico”, afirmou.

Mas uma dúvida pode pairar no ar, após tanta polêmica: se pela ótica machista, “lugar de mulher é na cozinha”, porque mesmo neste ambiente as mulheres ainda são discriminadas?

O pós-doutor em sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, Carlos Alberto Dória, discute esta questão no artigo “Flexionando o gênero: a subsunção do feminino no discurso moderno sobre o trabalho culinário”, de 2012.

O artigo busca identificar traços escritos e gestuais que apontem a especificidade de uma sensibilidade gastronômica feminina, em oposição a uma norma masculina para os trabalhos culinários. A pesquisa analisa a perda do controle da cozinha pela mulher na fase de urbanização e industrialização e sugere a adoção de uma etnografia de gestos culinários para recuperar a dimensão cultural do feminino na cozinha.

Dória explica que, empiricamente, se sabe que a frase “mulher na cozinha” é uma categoria diferente de “homem na cozinha” e cita que na tradição francesa, historiadores indicam vários momentos nos quais é notável o desenvolvimento em direção à substituição da mulher pelo homem no ambiente culinário. A mulher estava associada a “cozinha com amor”, em casa, e o homem, a cozinha profissional, em ambientes externos.

“A condução ideológica da culinária ocidental se torna plenamente masculina quando se recrutam cozinheiros para as cortes ou quando começam a propagar os restaurantes das grandes cidades. Mas mesmo antes disso, os principais livros de difusão da cultura culinária são de autoria masculina, antecipando a inversão de controle sobre a sedução: da sedução doméstica do “manter”, parte-se claramente para aquele do “conquistar”, que exerce na esfera pública”, afirma.

A cozinha deixa de ser um afazer doméstico e é tratada como uma “arte superior”. E daí se propaga ideias como a de que o homem é mais rigoroso em seu trabalho, reservando a comida doméstica, feita a “mãos”, e não pelo uso de ferramentas culinárias (que seriam os equipamentos usados na cozinha, como faca e batedeira, por exemplo), a mulher.

“O discurso sobre excelência, sobre estilo culinário, sobre a criatividade, está centrado atualmente na figura do chef que é, invariavelmente, masculino, e esconde os múltiplos caminhos que historicamente se trilhou para se chegar a esse resultado. E o contra discurso opressor nesse domínio é também muito claro: trabalho na cozinha é coisa árdua, não é para mulheres. Exceções: a “banqueteira”, a “cozinheira étnica” e, não raro, a confeiteira. Mesmo assim, pode-se ainda ouvir preconceitos fortes e ativos como: mulher menstruada não pode fazer maionese, pois esta desanda”, explica Dória.

O que acontece na cozinha, pelo visto, é o reflexo da nossa sociedade machista. Mas entendam de uma vez: lugar de mulher é onde ela quiser! 

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