FAO escolhe 2016 como o Ano Internacional das Leguminosas

Feijão é a leguminosa mais consumida pelos brasileiros
A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) escolheu 2016 como o Ano Internacional das Leguminosas. Com a temática “Sementes nutritivas para um futuro sustentável”, a organização pretende dar mais visibilidade a essas plantas ricas em proteínas, micronutrientes, vitamina B, fibras e minerais. Mas afinal, o que são leguminosas? Qual a importância delas para a alimentação humana? E para a agricultura?

A primeira vista, parece que leguminosas são legumes, não é? Mas não é bem assim. Leguminosas são plantas que apresentam vagens, também chamadas de legumes, daí a origem do nome. No Brasil, a leguminosa mais consumida é o feijão, mas também pertencem a esse grupo soja, ervilha, grão-de-bico e lentilha.

As leguminosas são alimento básico em algumas culturas – como no Brasil – e são bastante consumidas por grupos de estratos sociais economicamente menos favorecidos, pois representam uma das principais fontes de energia e proteína na dieta.


Segundo o artigo Biodisponibilidade de minerais das fontes leguminosas, de Norka Beatriz Barrueto-Gonzalez, doutora do curso de nutrição da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp – Botucatu), de 2008, em diferentes regiões do mundo, o consumo de determinadas leguminosas está associado aos hábitos alimentares locais. “Como exemplos, podemos citar a ervilha que é bastante consumida em países asiáticos, o feijão-comum em países da América Latina e África e o grão-de-bico e a lentilha nos países do Oriente Médio”, afirma a pesquisadora.

Norka explica que no Brasil, o cultivo de leguminosas tem crescido em importância nas ultimas décadas, decorrente de estratégias político-econômicas governamentais, como o incentivo para o aumento da produção agrícola nacional e opções de cultivo aos produtores e de consumo para a população. “Devido às qualidades nutricionais, as leguminosas estão em um grupo à parte dos alimentos de origem animal na Pirâmide Alimentar Adaptada, por serem comuns na alimentação básica brasileira e por contribuírem para o consumo de proteínas, principalmente o feijão que junto com o arroz fornece um adequado balanço de aminoácidos”, explica.



Agricultura sustentável

Além da importância para alimentação humana, as leguminosas são utilizadas na agricultura como adubos verdes. Esse grupo de plantas tem a capacidade de adicionar nitrogênio ao solo mediante a fixação biológica. Pesquisa realizada pelo Polo Regional de Piracicaba, da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), mostra que é possível incorporar 90 quilos de nitrogênio, por hectare, no tomate cereja, se ele for plantado em consórcio com as leguminosas.


Tomate plantado em conjunto com o tremoço
As plantas, assim como todos os seres vivos, precisam de nitrogênio. O ar atmosférico é muito rico desse elemento, o problema é que as moléculas de nitrogênio possuem uma ligação tripla covalente, o que dificulta a sua quebra e seu uso em compostos orgânicos. Na agricultura, as leguminosas têm papel fundamental por terem em suas raízes bactérias do gênero Rhizobium, capazes de quebrarem esta ligação covalente. O resultado é a incorporação e fixação de nitrogênio no solo, sem a necessidade do uso de fertilizantes químicos, promovendo economia e sustentabilidade ao sistema agrícola.

“Para a produção de fertilizantes químicos, essas ligações são quebradas com energia e pressão. Com o plantio de leguminosas é possível incorporar no solo o nitrogênio sem a necessidade do uso de produtos químicos, o que torna a agricultura mais sustentável e barata”, afirma Edmilson Ambrosano, pesquisador do Polo Regional de Piracicaba da APTA.

Os resultados parciais da pesquisa desenvolvida pela Agência mostram que quando cultivado em conjunto com leguminosas, o tomate cereja incorpora cerca de 90 quilos de nitrogênio por hectare, o que equivale a uma transferência de 30% na quantidade de nitrogênio ao tomate. A pesquisa avalia o consórcio de tomate com tremoço, feijão-de-porco, crotalária-júncea, mucuna-anâ e caupi. A primeira fase do projeto mostrou que a incorporação de nitrogênio aumentou em 10% a produtividade do tomate salada.

Crotalária-júncea é um importante abudo verde
Para alcançar esses resultados, os pesquisadores da APTA utilizaram uma técnica chamada abundância natural de nitrogênio 15 e conseguiram, de forma inédita, comprovar a incorporação do nitrogênio na cultura. “Comprovar essa incorporação é importante para dar mais segurança aos agricultores e convencê-los dos benefícios das leguminosas na agricultura”, explica Ambrosano.

De acordo com o pesquisador da APTA, existem dois isótopos comuns de nitrogênio, o 14 e o 15. O isótopo 14 é bastante encontrado na natureza, diferentemente do isótopo 15. “Com a pesquisa, conseguimos medir a quantidade de nitrogênio 15 incorporada na cultura. É uma pesquisa básica, mas que pode ser aplicada, por dar mais informações aos agricultores que utilizarão a técnica”, afirma. O trabalho, iniciado em 2009, contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Cana-de-açúcar mais produtiva

Esta é a segunda pesquisa da APTA Regional que mostra a incorporação de nitrogênio com o uso de leguminosas. Trabalho finalizado pela APTA em 2010 mostra que a adubação verde em cana-de-açúcar pode substituir a aplicação de 70 quilos de nitrogênio por hectare e aumentar de 20% a 30% a produtividade da cana. “Isso representa uma economia importante ao agricultor”, afirma Ambrosano.

O trabalho avaliou a incorporação de nitrogênio na cana após o plantio de crotalária-júncea IAC-1. “Outro resultado foi o aumento na longevidade do canavial. Normalmente, a cana-de-açúcar é renovada no quinto corte. Com o plantio da crotalária-júncea é possível estender a vida útil do canavial para seis cortes. Essa longevidade é ainda maior se ocorrer o cultivo de adubo verde nas entre linhas da cana”, diz. O trabalho foi financiado pelo CNPq e FAPESP.

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