Destruição em Campinas pode ter sido provocada por tornado ou microexplosão

Telhado do Galleria Shopping, em Campinas (Crédito EPTV)
Parte da cidade de Campinas, interior paulista, foi devastada no último sábado, 4 de junho de 2016. Os ventos, que chegaram a 120 km/hm, e a forte chuva derrubaram árvores, destelharam casas, escola e shopping e deixaram mais de 100 mil pessoas sem eletricidade. Cinco pessoas ficaram feridas.

Segundo o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas a Agricultura (Cepagri/Unicamp) nos três primeiros dias de junho, foi registrada a precipitação de 73,2 mm na estação meteorológica da Unicamp, o que representa mais de duas vezes o valor da média esperada para o mês, que é de 35,4 mm. O Cepagri alerta para a ocorrência de temporais até terça-feira, 7, na cidade.

Diante do cenário, o Fique Ciente conversou com professor e pesquisador do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG/USP), Mario Festa. Segundo o pesquisador, é possível que tenha ocorrido na cidade a formação de tornados ou de microburst, conhecido como microexplosão. Confira a entrevista abaixo.

O IAG é um dos principais polos de pesquisa do Brasil nas áreas de Ciências Exatas e da Terra, com mais de 120 anos de atividades. No ensino, se destaca na formação de profissionais nas áreas de Astronomia, Geofísica e Meteorologia em nível de graduação e de pós-graduação.

Condomínio devastado em Campinas (Crédito EPTV)
No último sábado, foi registrado na cidade de Campinas (SP) ventos de até 120 km/h e chuvas de 73 mm. Essas condições podem indicar a ocorrência de um tornado? 

A tempestade que atingiu Campinas foi provocada por uma área de forte instabilidade, como se diz em Meteorologia, em que parte da  atmosfera pode desenvolver, rapidamente, condições de formar tempestades violentas, provocando ventos muito fortes, acompanhados de chuva intensa e, eventualmente,  queda de granizo.

Nestas condições, é possível a ocorrência a formação de tornados ou de "microburst", sendo este último conhecido como "microexplosão". Não há outro fenômeno que provoque estes efeitos.


Como se formam os tornados e as microexplosões?

Os tornados se originam na base de uma nuvem de tempestade denominada de "Cumulonimbus", a única que pode provocar raios e trovões, pancadas fortes de chuva, queda de granizo e ventos intensos abaixo da sua base.

O fenômeno se inicia quando parte da base da nuvem começa a girar  devido ao vento, criando um pequeno funil giratório de nuvem, que vai se estendendo e aumentando de diâmetro se as condições forem favoráveis, atingindo diâmetros de algumas dezenas de metros a até 2.000m, que são os maiores.

O formato afunilado e a rápida rotação do funil faz com que no seu interior, a pressão atmosférica fique menor do que a pressão atmosférica na parte externa ao redor do funil.  Então, a diferença de pressão entre o interior e exterior do funil do tornado, faz com que haja uma forte sucção do que houver ao redor, arrancando árvores, destruindo telhados e mesmo arrastando  facilmente, até mesmo um automóvel de 1.200 kg!  Estes são considerados os de maior poder de destruição.

O outro fenômeno denominado de "micorexplosão" é causado pelo fluxo descendente do ar sob a base da nuvem, que frequentemente pode atingir até mais de 100 km/h, e ao atingir o solo é forçado a desviar para as laterais. Isso provoca uma violenta rajada de vento que pode derrubar facilmente árvores, arrancar telhados, arrastar e até mesmo tombar, veículos pesados. Este fenômeno é de curta duração.

No evento de Campinas, só pode ser caracterizado como "tornado", se houver comprovação da existência do funil, mas quando o fenômeno ocorre de madrugada, é difícil a sua observação.  Outra característica  para  comprovar um tornado é observar a trajetória do seu rastro, que geralmente é irregular, enquanto que na "microexplosão", a destruição é causada por um fluxo horizontal de ar, como se fosse "uma onda", levando tudo o encontra pela frente.

A palavra "tornado" se origina de "torno", que é uma máquina que tem um eixo giratório.

"Cumulonimbus" é de origem latina:  "cumulus + nimbus", sendo "cumulus" - "acumular, juntar, empilhar", porque  se origina de uma nuvem denominada "Cumulus", que  inicialmente é uma nuvem pequena, semelhante a um  floco de algodão. Se as condições atmosféricas favorecerem, ela vai acumulando vapor de água condensado, e ir aumentando de tamanho, até atingir proporções gigantescas, alcançando a extensão vertical de até 18 km nas regiões equatoriais.

A palavra"nimbus" no latim significa "nuvem de chuva".

Para identificar esta nuvem, basta observar o seu formato que vista de perfil, se assemelha a uma bigorna.  Quando ela está acima do observador, o seu perfil não pode ser visto, mas a sua base fica extremamente escura, com aspecto ameaçador, e o que a identifica como sendo "Cumulonimbus", é a presença dos raios e trovões.   O seu formato real é como um grande cogumelo, com o topo arredondado e achatado, e o corpo mais estreito abaixo.

Toda nuvem Cumulonimbus tem granizo formado no seu interior, mas felizmente nem sempre cai à superfície.  Aqui no Museu de Meteorologia há um registro em tijolos de uma olaria de Jaguariúna, em que as pedras de 300 a 350 g, deixaram marcas no barro, antes do cozimento. Há registros de granizo gigante de mais de 750 g de peso.


É comum a ocorrência de tornados no Brasil? 

Tornados não são muito frequentes no Brasil, apesar dos registros de ocorrência em vários Estados. A baixa frequência do fenômeno se dá por não se encontrarem contrastes muito grandes de temperatura e umidade no nosso território, a não ser em algumas ocasiões específicas.


É possível prever a ocorrência de um tornado? Se sim, em quanto tempo antes da ocorrência?

Os tornados são fenômenos de difícil previsão, pois se formam muito rapidamente, porém, quando são observadas nuvens  "Cumulonimbus" de grandes dimensões, denominadas de "supercélulas", frequentemente são registrados. Às vezes, vários tornados originados da mesma nuvem.

Então, Cumulonimbus muito grandes, podem dar a expectativa da formação eventual de um tornado.

Há risco de novas ocorrências? 

Sempre pode haver riscos de novas ocorrências, mas é pouco provável que uma região atingida recentemente, tenha a repetição do fenômeno a curto e médio prazo.


O que fazer quando ocorre um tornado? Como a população pode se proteger?

Infelizmente, quando ocorre um tornado, por surgir muito rápido, não há o que fazer.

Nos locais onde frequentemente se formam tornados, como ocorre em algumas regiões dos Estados Unidos, o serviço de Meteorologia pode fazer um prognóstico anunciando a possibilidade de formação de tornados, durante uma tempestade. Neste caso, as pessoas procuram se abrigar nos porões das casas, já construídos para esse fim, ou procurar abrigo em grandes edifícios que resistem melhor aos ventos fortes.


A ocorrência desse fenômeno é resultado das mudanças climáticas? 

Tais fenômenos são estritamente locais, devido às condições atmosféricas que favoreçam a sua formação, nada tendo a ver com mudanças climáticas. É claro, porém, que se forem comprovadas alterações climáticas em alguns locais específicos, como, por exemplo, um aquecimento maior, resultando em uma elevação média da temperatura do ar ao longo das décadas, uma quantidade maior de calor na atmosfera, poderá gerar tempestades mais frequentes.

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