Plantio de crotalária para combate ao mosquito Aedes aegypti não tem comprovação científica

Crédito Arquivo IAC
Em uma busca rápida no Google, o internauta achará diversas alternativas para o controle do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya. Uma dessas alternativas, consideradas por alguns sites como “de vanguarda”, é o plantio da crotalária, planta que atrairia uma libélula predadora do mosquito. Solução aparentemente simples, não? Mas, leitor, não se engane. Ela não tem comprovação científica alguma.

Não se sabe de onde surgiu a informação de que as flores da crotalária atrairiam e favoreceriam a proliferação ambiental da libélula Ordem Odonata, também conhecida como zigue-zague, lavadeira, lava-bunda, cavalo-de-judeu e jacinto, que se alimentaria de alguns insetos, entre eles o Aedes aegypti. O que sabemos é que diversas prefeituras do interior de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná, distribuíram ou estão distribuindo, sementes de crotalárias e vasinhos de muda, incentivando a população a cultivar a planta.

A iniciativa pode parecer inofensiva (sabe aquela velha frase, “mal não faz”?), só que é necessário reforçar que o combate ao mosquito se faz com a localização e eliminação dos criadouros.

“Sem fundamentação e comprovação científica não se pode recomendar qualquer coisa, uma vez que a vida humana é muito preciosa para depender de apenas observações e constatações pessoais, ainda que ambientalmente bem intencionadas”, afirma Edmilson Ambrosano, pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), que realiza pesquisas com a crotalária.
Ambrosano e mais quatro autores publicaram o documento Aedes aegypti: controle pelas crotalárias não tem comprovação científica, coordenado pelo Instituto Agronômico (IAC), de Campinas.

O documento do IAC cita uma pesquisa do professor e pesquisador do Departamento de Zoologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Fernando Salgueirosa de Andrade e  Isaías Cabrini, que também não apoia o cultivo da crotalária para o combate à dengue, considerado por eles como método inoculo e sem efeito.

Segundo Andrade, seriam necessários milhões de libélulas para combater apenas algumas larvas do mosquito. Os pesquisadores da Unicamp informam também que, além de ser uma predadora inespecífica, ou seja, não preda preferencialmente as larvas do Aedes, é raro que as libélulas sejam constatadas em locais onde é comum a ocorrência do mosquito da dengue. A libélula faz a postura de seus ovos em grandes depósitos de água, enquanto o mosquito precisa apenas de uma gota.

O pesquisador da APTA conta que é comum a consulta de colegas de profissão, professores, estudantes e pais de vários Estados brasileiros sobre a veracidade das informações sobre a crotalária para combate ao mosquito da dengue e a respeito da possibilidade da aquisição de mudas ou sementes, mesmo sem identificação da espécie. “A divulgação dessa informação como prática eficaz e comprovada, considerada por alguns até como de vanguarda, é de fato alarmante e irresponsável”, conclui Ambrosano.

A crotalária é uma planta leguminosa, considerada um importante adubo verde, capaz de fixar nitrogênio no solo, reduzindo o uso de produtos químicos, além de controlar nematoides dos solos.



Ações efetivas para combate e controle das doenças

De acordo com o Plano Contingência Nacional para Epidemias de Dengue, as ações necessárias ao combate da doença englobam vigilância epidemiológica, controle do vetor, assistência e monitoramento dos casos suspeitos, ações de saneamento, limpeza urbana e educação, comunicação e mobilização social. O controle da doença é uma corresponsabilidade que envolve a sociedade como um todo – poder público e população.

Segundo Mônica Magalhães, Anselmo Rocha Romão e Renata Rufino Amaro, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a disseminação da dengue está associada a um conjunto de variáveis que não é especifica de um determinado grupo social. No entanto, o acesso a recursos sociais como cobertura universal de esgotamento sanitário, abastecimento de água, coleta de lixo e moradia pode resultar em um impacto positivo.

Segundo o Levantamento Rápido do Índice de infestação por Aedes aegypti (LIRAa), realizado nos municípios do Estado do Rio de Janeiro, em 2015, os depósitos predominantes com criadouros do vetor estavam relacionados ao armazenamento de água para uso doméstico e depósitos móveis como vasos, frascos, pratos e pingadeiras, por exemplo, evidenciando a necessidade de investimento em saneamento.

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