Apenas 26% dos bolsistas CNPq se declaram negros

Crédito: TV Unesp
Um quarto dos bolsistas cadastrados no sistema de bolsas de formação de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) se declararam negros (pardos e pretos), totalizando 26% do total de 91.103 bolsas em todo o País. A análise sobre a participação de negros e negras no sistema científico foi realizada a partir do levantamento de dados relativos às folhas de pagamento de todos os bolsistas do CNPq, nos meses de março de 2014 e janeiro de 2015. Os dados apontam para a baixa participação de pesquisadores negros na ciência nacional, principalmente a de mulheres negras, e queda na participação a medida que se eleva o nível de formação dos bolsistas. A pesquisa do CNPq utiliza o termo "negro" para falar sobre pessoas que se declaram "pretas" e "pardas".

As mulheres brancas representam 59% do total de mulheres bolsistas do CNPq e as negras (pardas e pretas), 26,8%. Entretanto, a participação de mulheres que se declararam pretas, é de apenas 4,8% do total. Entre os homens, os brancos representam 56,3%, os negros 24,3% e os pretos 4,7%.

Segundo pesquisa do CNPq, realizada por Isabel Tavares, Maria Lúcia de Santana Braga e Betina Stefanello Lima, responsáveis pelo levantamento, a participação de pardos e pretos decresce à medida que se eleva o nível de formação dos bolsistas, em ambos os sexos. A participação de negros é maior na iniciação científica, resultado da política de inclusão racial e social, e menor no doutorado e nas bolsas de Produtividade em Pesquisa.

Na iniciação científica, negros e negras superam os 30% do total de bolsistas, porém, ainda é necessária maior inclusão de pretos e pretas, já que o percentual é de cerca de 5%, na iniciação científica e mestrado. No doutorado, as mulheres pretas não atingem 4%.

Na bolsa de produtividade em pesquisa, a participação das pessoas que se declaram como negras é muito pequena, principalmente. entre as pretas, que não atinge 1%. Entre os homens, 1,2% apenas. A participação das mulheres brancas é superior a 70%. No total, são 7% de pesquisadoras negras (pardas e pretas) com bolsas de produtividade em pesquisa, e 9,5% de pesquisadores negros com a mesma bolsa.

De acordo com as autoras, as bolsas de produtividade em pesquisa são as que apresentam, de forma mais nítida, a exclusão de pretas e indígenas do sistema C&T e a maior desigualdade de gênero. De um total de 14.040 bolsas desta categoria, em janeiro de 2015, 35,6% são mulheres e 64,4% são homens. Também nesta modalidade, há maior concentração de bolsistas da cor branca, de ambos os sexos. No nível mais alto da bolsa, 1A, a participação dos brancos atinge 80%. A de negros é de 2,6%. Não há pretos neste nível.

O levantamento mostrou que a participação de negros e negras (pardos e pretos) nas áreas de conhecimento segue o padrão da participação histórica dos sexos: os homens são maioria nas áreas mais tecnológicas e das ciências exatas e agrícolas, e as mulheres nas áreas humanas, biológicas e saúde.

Distribuição de bolsistas no exterior
Os bolsistas no exterior somaram 12.780, em dezembro de 2014. O percentual de indivíduos brancos atingiu 64,8% do total. O percentual de negros e negras foi de 18,8%.

Na modalidade de graduação no exterior, que atende ao Programa Ciência sem Fronteiras, o percentual de mulheres que se declararam como pretas é de 1% e de homens 1,3%.

Segundo a pesquisa as bolsas no exterior, inclusive a graduação, têm um viés predominantemente tecnológico e a presença de mulheres nessa área, historicamente, tem sido inferior aos homens.

As pesquisadoras consideram que uma explicação para a pouca representatividade da população negra nessa modalidade seria, em parte, pela dificuldade de domínio de um segundo idioma, já que grande parcela desta população não teve acesso a ensino de qualidade de uma segunda língua.

Análise do CNPq
Em 2013, o CNPq inclui o item cor/raça, segundo classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na plataforma Lattes, para atender a demanda por esse tipo de dados. Em todos os Currículos Lattes, ao serem atualizados, é solicitado informações sobre a raça/cor dos estudantes, bolsistas e pesquisadores brasileiros.

A partir desta primeira análise do CNPq será possível realizar estudos para mapear a participação dos grupos étnico-raciais na ciência e tecnologia brasileira, além de acompanhar as políticas de inclusão racial e estruturar outros programas e políticas.

Censo 2010
O Censo Demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, mostra que 82 milhões de brasileiros, 43,1% do total, se declaram como pardos, e 15 milhões, 6,2% do total, como preta. O Censo 2010 apontou a grande diferença existente no acesso a níveis de ensino pela população negra. No grupo de pessoas de 15 a 24 anos que frequentava nível superior, 31% dos estudantes eram brancos, enquanto apenas 12,8% eram pretos e 13,4% pardos. ()


Entrevista: Juarez Tadeu de Paula, professor do curso de jornalismo da Unesp, alvo de ofensas racistas

Crédito: Cristiano Zanardi/Folhapress
O Fique Ciente entende que para falar sobre racismo, é necessário ouvir quem sofre, quem luta. Por isso, o blog abriu espaço para que estudantes e professores negros contassem sobre o racismo que sofreram e ainda sofrem no ambiente acadêmico. Também quer participar e contar sua história? Use os comentários e compartilhe com a gente!

Conversamos com Juarez Tadeu de Paula, professor do curso de jornalismo da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp – Bauru). Juarez foi alvo de ofensas racistas escritas em um banheiro masculino da Universidade, local que foram escritas as frases “Unesp cheia de macacos fedidos” e “Negras fedem”. Em 28 de julho de 2015, ele deu um depoimento para o jornal Folha de S. Paulo sobre o assunto.

Confira abaixo entrevista do professor ao blog Fique Ciente.

Como era a questão do racismo na escola? O senhor fala na entrevista para a Folha que na “escola é cruel”...

Juarez - Cruel, como todo o processo de socialização do negro na sociedade brasileira. Na época, não havia merenda pública. A professora. "D. Nicinha", num ato de bondade pura, designou um aluno, João, para levar lanche para alguém da sala: eu. As horas de recreio eram sofridas. Além da perversidade do sistema escola. As crianças reproduzem na escola o que aprendem em casa, com os pais. Foi um período de enfrentamento cotidiano. Creio que não é diferente hoje, mas as crianças, em função das ações dos pais, talvez estejam mais preparadas para esses ambientes de reprodução de hostilidade.

E na graduação, o senhor sofria algum tipo de discriminação?

Juarez - Sim, mas já era militante. Estudei na PUC/SP é lá tinha o Grupo Negro da PUC, tinha o Ipeafro, dirigido pelo senador Abdias do Nascimento, e tinham as organizações políticas. Enfrentei as discriminações com ações políticas. Fui presidente do DCE Livre da Universidade, e nos momentos de enfrentamento, as questões raciais vinham à tona. Mas, já era militante, diferente do período do ensino fundamental. Participei dos eventos políticos importantes sobre a questão racial [seminários, encontros, debates] e tive ação ativa contra as discriminações.

E no mestrado e doutorado? Enfrentou alguma dificuldade neste sentido?

Juarez - O racismo permeio as relações sociais, em todas as dimensões, na sociedade brasileira. No mestrado e doutorado, fiz no Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo [Prolam/USP], e na época, fiz parte do Núcleo Interdisciplinar sobre o Negro Brasileiro [Neinb], dirigido, entre outro pelos professores Milton Santos e Kabengele Munanga [meu orientador]. Minha pesquisa foi sobre a questão racial. Os enfrentamentos se deram no nível teórico e intelectual. Mas, as condições de enfrentamento eram outras. Tinham mais ferramentas teóricas e conceituais.

O senhor é o primeiro da sua família a ter diploma universitário?

Juarez - Sim! Tenho um primo, professor na Universidade Federal do ABC, que é o segundo. Mas, nas novas gerações, teremos muitos mais, acredito!

Por que o interesse na vida acadêmica?

Juarez - As pesquisas no mestrado e no doutorado me levaram à atividade profissional na academia. Minha orientadora [Ronilda Ribeiro] e meu orientador [Munanga] fizeram campanha "sistemática", com a alegação de que era uma condições fundamental para contribuir com a ruptura do último estágio: ingresso na universidade. Encaro como uma tarefa intelectual e política, que faz parte das ações dos negros e negras no país pela inclusão.

No Brasil ainda há poucos negros na academia. Como o senhor vê esta questão?

Juarez - Preconceito, discriminação simbólica e conceitual e racismo. Para cada ação, uma política específica, transformadas em políticas públicas de inclusão.

Neste ano o senhor foi alvo de ofensas racistas escritas em um banheiro masculino da Unesp. Como o senhor lidou com a questão? Os alunos foram identificados? Qual a posição da Universidade sobre o assunto?

Juarez - Agi para politizar a questão, com ações legais, pois foi cometido um crime, e pedagógicas, com ações para a educação pela diversidade. A universidade acatou e adotou uma série de mecanismos para identificar, punir e transformação o espaço acadêmica, já que somos a única universidade pública estadual em São Paulo a adotar as cotas. Os responsáveis não foram identificados, mas criou-se um método para lidar com as situações futuras: politização, debate, ações com o Ministério Público e sociedade. No caso das identificações, aplicação do estatuto da universidade, com a adoção de medidas administrativas e legais.

Nesses anos de atuação como professor, o senhor sabe quantos alunos negros já teve?

Juarez - Poucos! Tantos nas escolas particulares como nas públicas. Porém, acompanho-as/os -algumas/alguns pelas redes sociais, e me alegro de vê-las/los no enfrentamento ao racismo.


Sua história

Eugenio Rodrigues, 26 anos, aluno do curso de Física, da Unicamp. Fez intercâmbio na Alemanha entre o segundo semestre de 2012 e todo o ano de 2013.



“A minha entrada na Universidade só foi possível graças a ajuda de amigos e muito tempo de estudo. Até o primeiro ano do Colegial, eu nem sabia o que era Universidade e muito menos que havia Universidade pública, com programas de permanência estudantil. Nunca havia tocado no assunto em casa, apesar de ter vindo de uma família de professores, sendo que minha mãe foi a única dos filhos que não seguiu nessa área, parou de estudar na oitava série.

Pois bem. Se não fossem meus amigos terem me falado sobre faculdade e terem me falado sobre um curso pré-vestibular pago (que eu não tinha a mínima condição de bancar), eu não teria conseguido entrar na Unicamp. O que eu fiz foi assistir, concomitantemente com o último ano de estudo, as aulas do pré-vestibular sem pagar.

Conforme os professores foram vendo que eu me dedicava nas aulas, foram se afeiçoando a mim e quando tentei conversar sobre as mensalidades e um jeito de pagá-las, já haviam decidido que eu não teria necessidade de pagar o curso. Pura sorte e boa vontade deles, mas fruto do meu esforço também. Eu tive essa oportunidade e lá nesse curso eu fiz amizades que me levaram para tentar uma bolsa de estudos na escola particular mais renomada da minha cidade, o que me fez mudar de escola e começar a estudar lá. De novo, uma oportunidade que não surge para muitos.

Graças também a essas “coincidências” da vida, consegui uma boa base para tentar estudar na Unicamp, sendo que eu estudava cerca de doze horas por dia nos finais de semana, que era quando eu tinha tempo. Só com o conhecimento da minha escola pública, que era muito boa por sinal, eu teria bastante dificuldades de conseguir entrar na Unicamp, uma vez que lá não preparava para o vestibular, no máximo para ter uma base para o Enem.

Na Unicamp, por diversas vezes sofri racismo. Fosse na forma dos olhares da galera da minha sala, que me via como um intruso, um diferente (fui por três anos o único negro nas minhas aulas), ou fosse na forma de deslegitimação dos meus comentários em classe ou dúvida sobre o conhecimento que eu demostrava em algum assunto, sempre houve comportamentos racistas em relação a mim.

O fato de não estar no padrão dos demais alunos também geravam perguntas como “de que país (da África) você é?” ou similares. Recentemente, um professor indagou a turma sobre que feriado era o dia 20 de novembro e, quando constatou que era da 'Consciência Negra', ele bradou que “tinha a consciência branca, limpinha”, e que por isso não entendia o por quê desse feriado, isso tudo na minha frente, sendo que eu fui orientado por ele por três anos e era o único aluno negro da turma.

Enfim, negro numa Universidade pública é difícil para entrar e para permanecer nela sem sofrer com o racismo cotidiano demonstrado nas pequenas e grandes ações.”


Cido Ferreira, estudou Sociologia na UFSCar e hoje é professor.



"Foi difícil entrar na faculdade, por não compartilhar dos valores sociais exigidos pelo vestibular. Por mais inteligente que fosse, nunca fui "treinado" pra disputar uma vaga na faculdade pública.

A faculdade em si, foi algo muito positivo pelo desenvolvimento intelectual, os colegas de faculdade e a boa estrutura universitária. Por outro lado, as marcações de classe social/racial sempre foram muito marcantes, mesmo com estudantes intelectualizados.

As maiores dificuldades, creio que fora semelhante a de grande parte que ingressam na universidade: a linguagem acadêmica. Foi muito difícil se adequar a linguagem científica e aprender seus significados. Me identifiquei com muitos autores e teóricos, mas sempre senti falta de intelectuais negros mais consagrados e com uma forma de escrever que eu pudesse me identificar.

Mesmo com assistência estudantil, sempre senti dificuldades com necessidades básicas e, por isso, tive que trabalhar, assim como muitos estudantes, para supri-las."

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