Alegria contagia corredores de hospitais

Centro Infantil Boldrini foi pioneiro na introdução de brinquedotecas hospitalares e classes no hospital (Crédito: Boldrini)
O ato de brincar é apontado como a atividade mais importante para a criança, por ser essencial ao seu desenvolvimento psicomotor, emocional, mental e social. No caso das crianças que precisam se afastar de casa, da escola e do convívio da família e amigos para realizar tratamento hospitalar, a brincadeira é uma oportunidade de disfarçar o dia a dia do hospital, produzindo uma realidade única que, alterando entre o imaginário e o mundo real, permite à criança transpor a barreira da doença e os limites do tempo e do espaço.

Segundo artigo Palhaços de hospital como estratégia de amenização da experiência de hospitalização infantil, publicado na revista Psico USF, da Universidade de São Francisco, por meio da brincadeira a criança explora e conhece o mundo, aprende a lidar com suas emoções e sentimentos e com os sentimentos das outras pessoas. O brincar também ajuda a estabelecer relações entre o imaginário e a realidade e constrói uma ligação entre seu próprio ser e o mundo de significados e objetos.

As autoras Susana Caires, Isabel Almeida, Carla Hiolanda Esteves e Susana Correia, da Universidade do Minho, em Portugal, afirmam que o intenso prazer vivido pelas crianças em suas brincadeiras com os palhaços hospitalar resulta não apenas do prazer de brincar, mas também pelo fato de encontrarem uma forma de dominar suas angústias.


Brincadeiras no hospital trazem benefícios para as crianças, pais, médicos e enfermeiras (Crédito: Boldrini)
O pioneirismo do Centro Infantil Boldrini

Silvia Brandalise, presidente do Centro Infantil Boldrini, afirma que os impactos da internação hospitalar nas crianças se inicia pelos procedimentos como punção venosa para soros, antibióticos, quimioterapia, entre outros. “O ambiente não é a sua casa. Ficam longe da escola, dos amigos, irmãos, avós... A criança fica restrita ao leito, na maior parte do tempo e por longos períodos”, afirma. No Boldrini, de 70% a 80% do tratamento é realizado em regime ambulatorial. Quando internadas, por infecção, procedimentos cirúrgicos ou para quimioterapia, o tempo médio de permanência no hospital é de cinco dias, mas em alguns casos pode variar de 20 a 40 dias. O hospital atende crianças do período neonatal até 29 anos.

Apesar do período de internação não gerar prejuízos à saúde da criança, com frequência gera estresse psicológico e eventualmente traumas. O Boldrini foi pioneiro no Brasil na introdução de brinquedotecas hospitalares e das classes no hospital. “Há vários locais para brincadeira, tendo nos voluntários e brinquedistas, a grande força motivadora e propulsora. As crianças brincam entre si, com os voluntários e com seus acompanhantes. Os palhaços são muito atuantes no hospital”, explica Silvia. Nesta semana das crianças, por exemplo, o hospital recebeu a visita das princesas Elsa e Anna, do filme Frozen: Uma aventura congelante, e dos Heróis na Luta Contra o Câncer Infantil .

A presidente do Centro Infantil Boldrini afirma que não é possível identificar nenhuma desvantagem nessas ações que levam amor e alegria aos pacientes. “O que faz bem para o espírito e a alma, faz bem para o corpo. Com essas atividades, o ambiente hospitalar se torna mais acolhedor. O sofrimento parece se diluir entre brincadeiras e pinturas. Sem dúvida, isso facilita a adesão ao tratamento”, afirma. Segundo as pesquisadoras portuguesas, os palhaços nos hospitais alteram positivamente o apetite e o sono da criança, sua adesão aos procedimentos e exames médicos, os tratamentos e interações com os profissionais de saúde e a redução de seus níveis que ansiedade.

Além dos benefícios às crianças, os espaços destinados a brincadeira são também benéficos para os pais e acompanhantes. “Para os pais, esses momentos de descontração são fundamentais e necessários para estabelecerem as energias emocionais frente ao impacto da doença em seus filhos”, afirma Silvia.

O Centro Infantil Boldrini, localizado em Campinas, é o maior hospital especializado na América Latina. Atua há 37 anos no cuidado a crianças e adolescentes com câncer e doenças do sangue. Atualmente, o Boldrini trata cerca de 10 mil pacientes de diversas cidades brasileiras e alguns de países da América Latina, a maioria (80%) pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Um dos centros mais avançados do país, o Boldrini reúne alta tecnologia em diagnóstico e tratamento clínico especializado, comparáveis ao Primeiro Mundo, disponibilidade de leitos e atendimento humanitário às crianças portadoras dessas doenças.

Quero ser voluntário

No Centro Infantil Boldrini os voluntários são selecionados pelo Serviço de Voluntariado. São programados cursos específicos para preparo e orientação aos novos voluntários. Para participar, entre em contato com pelo telefone (19) 3787-5000 ou site www.boldrini.org.br.


Depoimento de Karine Aderaldo, estudante do curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), integrante do Projeto Y.

Karine Alderado, estudante da Universidade Federal do Ceará (UFC) e participante do Projeto Y (Crédito: Arquivo pessoal)
A palhaçoterapia surgiu na minha vida no comecinho da faculdade, quando estava acontecendo a apresentação dos projetos na semana inicial para os então calouros/bichos. Foi então que conheci o Projeto Y, fundado em 2005 por alunos da Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e que no momento contava com alunos da Medicina, Enfermagem e Psicologia. Hoje conta também com alunos dos cursos de Odontologia e Fisioterapia,  direcionado à humanização desses ainda-não-quase profissionais da saúde, que procurava por meio da figura do Doutor-Palhaço interagir com as crianças no Hospital Universitário de Fortaleza.

Foi paixão à primeira vista. Eu que sempre fui apaixonada por crianças, sempre tive o teatro e a dança tão presentes na minha vida e que era tão conectada ao ambiente hospitalar tinha achado o lugar que reunia todos esses meus desejos, meus modos de pensar o mundo. Entrei no meu primeiro semestre da faculdade e saí no oitavo. Foram quatro anos que estão se estendendo até os dias de hoje, em que não sou mais ativa, mas é impossível esquecer ou não reconhecer o impacto desses dias no meu dia a dia.

A experiência com o palhaço era/é incrível. Era incrível como a menor máscara do mundo, o nariz, era a mais eficiente. As pessoas sisudas esboçavam um sorriso, quase que como mágica. ‘Quase que’, porque era sintonia, permissão. A figura do palhaço acabava deixando todo mundo no mesmo patamar: paciente, acompanhante, equipe médica, funcionários e nós, palhaços.

O foco das visitas era as crianças, mas isso se estendia, inevitavelmente, a todas as pessoas que porventura estavam ali naquele local. E claro que isso tinha que acontecer, se estender, porque aquelas crianças não estão sozinhas ali. Junto com elas estão os pais preocupados, as enfermeiras cansadas e “rotinadas”, os médicos, muitas vezes, atentos aos seus sintomas e desatentos aos donos daqueles sintomas. Existe muita gente ao redor daquela criança que tá ali internada e se você conseguir mudar o dia de uma delas, a criança também muda. Como reação em cadeia. E é assim que eu vejo a figura do doutor-palhaço no hospital: alguém que tá ali pela criança, em pró-dela.

O nariz de palhaço, o menor óculos mais transparente do mundo (Crédito: Arquivo pessoal)
O nariz, ao meu ver, também é o menor óculos mais transparente do mundo. Com ele, deixa de se enxergar algumas coisas e se passa a ver outras. Os hematomas e curativos daquela criança dão lugar às suas brincadeiras favoritas, o motivo do internamento dela cede espaço a uma piada que ela pode fazer conosco. A rispidez de um médico dá preferência à brincadeira com seu jeito de andar ou a cor da roupa que está vestindo. A preocupação da acompanhante se transforma em riso do palhaço que tropeça aqui e ali. Os pacientes internados no setor da Pediatria dão lugar às crianças que ali passam uma temporada. Tudo isso com olhos e narizes mais ‘aprimorados’.

O hospital é um lugar frio, branco e sério. Ou é assim que tenta construir a sua imagem. E nessa ausência de calor, cores e sorrisos entra o doutor-palhaço pra lembrar que o hospital é um lugar de potência; potência em curar, em trazer uma saúde e em, por que não, trazer sorrisos?

É um trabalho fácil e ao mesmo tempo difícil. Fácil, porque a gente, em tese, põe uma roupa colorida, tenta fazer uma maquiagem diferente, arruma os cabelos de um jeito ‘peculiar’, leva uns brinquedos que fazem zuada e pronto. É “só” chegar no hospital que os ‘engraçadinhos’ começam a aparecer (lembra da potência?), só entrar na ala da pediatria e as crianças já vêm correndo e os acompanhantes já colocam suas cadeiras no corredor pra assistir o espetáculo que, engano deles, é feito por eles e nós somos apenas espectadores.

São pessoas que precisam encontrar uma brecha pra soltar uma gargalhada e um abraço, presos pelas algemas da doença e da dor e o palhaço tá ali de riso e braço abertos, esperando que algo (ou nada) aconteça.

Aqui vale a observação de que isso às vezes é fácil, pois por trás tem treino, leitura e dedicação. E é um trabalho também difícil, porque é responsabilidade. Responsabilidade em quebrar rotinas, procurar a criança perdida no meio daquelas camas e máquinas, em perceber que a seriedade e a desesperança já fez morada.

A Karine indica dois textos ótimos (e lindos) sobre o assunto, escritos por Nyna Strikynyna Esmeraldyna, no blog do Projeto Y.  Vale a pena conferir!

Dos limites do abraço
http://projetoy.blogspot.com.br/2013/05/dos-limites-dos-bracos.html

Silêncio
http://projetoy.blogspot.com.br/2011/03/silencio.html 

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