Pesquisas trabalham o resgate das Pantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)

Horta de PANC do Jardim Botânico Plantarum, em Nova Odessa, SP
Você conhece major gomes, serralha, beldroega, capuchinha, caruru, taioba, mangarito, bertalha, chuchu de vento e peixinho? Esses são alguns exemplos de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), que inclui todas as espécies com potencial alimentício, mas que ainda são subutilizadas, desconhecidas ou negligênciadas pela maior parte da população, pelos agricultores e mesmo pelas instituições de ensino e pesquisa.

“Não são conhecidas e não fazem parte de nossa alimentação diária e corriqueira, logo, não são convencionais e demandam explicações, uso de fotos e amostras botânicas até para se fazer entender em conversas ou aulas”, afirma Harri Lorenzi, um dos autores do livro Plantas Alimentícias não Convencionais (Panc) no Brasil, com 351 espécies de PANC.

O trabalho de resgatar o uso dessas plantas tem como importância a diversificação do cardápio e mesa dos brasileiros, ampliando o leque de opções com novos saberes e sabores, além de novas texturas, aromas, cores e nutrientes. “Muitas dessas espécies são rústicas, resilientes e adaptadas aos diferentes biomas brasileiros onde ocorrem ou podem ser facilmente cultivadas”, explica Lorenzi.

Cristina Perez Brandão, conheceu as PANC em suas caminhadas no Jardim Botânico Plantarum, em Nova Odessa, interior paulista. Se interessou pelo assunto e adquiriu a obra Plantas Alimentícias não Convencionais (Panc) no Brasil e desde então tem se aventurado no preparo das receitas. “Na minha casa tenho Ipê branco e amarelo. Esses dias fiz uma salada com as flores. Chamei todos os meus vizinhos e avisei para pegarem as flores logo para experimentarem”, conta a moradora de Nova Odessa, que está começando a montar sua própria hortinha de PANC.


Jardim de Utilidades do Jardim Botânico Plantarum: PANC são usadas no restaurante do local
A ideia é que os agricultores produzam suas próprias sementes ou propágulos e sejam independentes da indústria de sementes, podendo selecionar variedades e materiais mais adaptados a sua região ou gostos e demandas. “As espécies podem e devem ser cultivadas e manejo orgânico e agroecologico, desde que seguidos os preceitos da agroecologia”, diz.

É difícil especular porque essas plantas, usadas no passado, saíram da dieta do brasileiro, cada espécie pode ter um fator específico. “Algumas plantas consideradas PANC não possuem nem registro escrito que são alimentícias ou que foram no passado. A modernização e quimificação da agricultura com a dita Revolução Verde, levaram a simplificação dos sistemas agrícolas e a monocultura e mecanização pesada, dando prioridades a espécies mais fáceis de serem manejadas por equipamentos modernos desenvolvidos em outras regiões”, afirma o engenheiro agrônomo.

Confira reportagem sobre Frutas Não Convencionais

Segurança alimentar

Os pesquisadores da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), Cristina Maria de Castro e Antonio Carlos Pries Devide, explicam no artigo técnico Resgate de Conhecimento Tradicionais: Produção e Consumo de Plantas Não Convencionais que muito se fala sobre Segurança Alimentar e Nutricional, porém poucos cidadãos têm esse direito garantido. Segundo eles, a desnutrição e doenças ligadas à má alimentação são um dos principais fatores das mudanças ocorridas no perfil nutricional e epidemiológico da população.

Segundo jornal O Globo, estima-se que 11 milhões de mortes por ano no mundo esteja ligada à alimentação inadequada. O impacto econômico chega a 2 milhões de dólares por ano, quase 3% do Produto Interno Bruto (PIB Mundial). Pesquisa realiza pela Consumers International (CI) apontou que no Brasil, apenas 12% das pessoas identificam que as dietas não saudáveis contribuem para mais mortes do que guerras, tabagismo, consumo de álcool, Aids ou malária.

“As PANC contribuem grandemente para a Segurança Alimentar e Nutricional e, especialmente, para a soberania, pois as pessoas podem e deve produzir muitos dos alimentos que consomem, especialmente frutas e verduras. Além do cultivo doméstico, muitas podem ser obtidas na própria natureza por extrativismo para autoconsumo casual para diversificação do cardápio”, afirma Lorenzi.

De renegadas, essas plantas começam a se tornar queridinhas na gastronomia e têm despertado atenção de chefes de cozinha como Alex Atala (D.O.M) e Helena Rizzo (Maní). No dia 27 de setembro, o 9°  Paladar Cozinha do Brasil, do caderno Paladar do jornal O Estado de S. Paulo, realiza aula com Valdely Kinupp, pioneiro nas pesquisas com PANC, e Ivan Ralston, chefe de cozinha que prepara pratos com essas plantas.

Tomatinhos da Horta de PANC

Exemplos de trabalhos com PANC

Lorenzi e Kinupp lançaram em 2014, o livro Plantas Alimentícias não Convencionais (Panc) no Brasil, primeira obra dedicada às PANC, com vasto catálogo com fotos e explicações científicas de 351 espécies e 1053 receitas, com ilustração dos pratos.

Em Nova Odessa, interior paulista, o Jardim Botânico Plantarum, sob responsabilidade de Lorenzi, possui uma horta de PANC em que são cultivadas grande número de espécies da forma orgânica que serve para abastecer um dos restaurantes do Jardim. Cristina já experimentou no local o doce de melão croá. “É uma delícia! Eu e minhas amigas adoramos”, conta.

A APTA conduz pesquisas com PANC em Pindamonhangaba, no Polo Regional Vale do Paraíba. Em 2011, foi implementada no local uma área de 2 mil m² em sistema agroecológico de produção e uma Unidade Demonstrativa de plantas não convencionais, onde são realizados dias de campos e visitas técnicas, com cerca de 200 visitantes por ano.

O trabalho enfoca sistemas de produção agroecológico, onde práticas ecológicas de manejo do solo com cultivo mínimo, consórcios, adubação verde, compostagem, plantas companheiras e cultivo em alélias são repassados aos participantes. O sistema de produção é conduzido para avaliar o desenvolvimento das espécies, adaptação à região, ocorrência de pragas e doenças, manutenção do germoplasma e área para obtenção de propágulos e produção de mudas.

A APTA tem parceria com Universidades, Escolas Municipais e Colégios Técnicos e realiza intercâmbio técnico científico com projetos que atendem cerca de 30 produtores entre orgânicos certificados e de assentamentos de reforma agrária. Com a Prefeitura Municipal e Secretaria de Saúde, são realizadas rodas de estudo, visitas técnicas monitoradas com pacientes com problemas de saúde ligados a má alimentação e doação de mudas para implementação de hortas nos postos de saúdes dos bairros de Pindamonhangaba.

Os pesquisadores da APTA explicam que a importância nutricional das plantas, a sabedoria popular, a tradição cultural e histórica dos alimentos, são trabalhados no contexto de diálogos com os participantes, com elaboração de receitas e degustação de pratos. São destacados ainda a qualidade nutricional de plantas espontâneas, muitas delas utilizadas pelos nossos antepassados, e esquecidas da dieta atual como o caruru, da mesma família da Quinua, a serralha, da mesma família do alface, e a araruta, uma fonte de reserva utilizada por tribos indígenas, com amido de alta digestibilidade.

Conheça algumas PANC

Taioba




A Taioba é uma planta que produz folhas comestíveis gostosas, rica em nutrientes e muito fácil de ser produzida, especialmente no verão. A planta era muito consumida em Minas Gerais e as pessoas falam com saudade das suas qualidades e as receitas que as mães faziam.

Seu sabor é parecido com o espinafre, sendo mais suave. Pode ser preparado refogado como a couve com alho e/ou cebola e existem várias receitas de bolinhos, recheios para pizzas, enriquece sopas e feijão e serve como ingrediente para uma vitamina verde. Suas folhas são muito ricas em vitaminas A, B, C, e os minerais cálcio, fósforo, ferro a tal ponto que evita e cura a anemia. Possui apenas 24 calorias por 100 gramas.

Informações: 
http://www.aboaterra.com.br/artigo.php?id=85&Taioba%2C+uma+verdura+quase+esquecida

Batatinha-Ariá


O ariá (Calathea allouia) é uma planta de exuberante folhagem, por isso, pode ser utilizada como ornamentação. O ariá produz raízes tuberosas (batatas) que podem ser comidas em saladas, como purê, em caldeirada, cozida com sal, entre outros.

Conhecido e consumido pelos índios e caboclos, o ariá possui composição nutricional comparada à batatinha portuguesa, embora a qualidade da sua proteína seja muito superior, considerando os níveis de aminoácidos essenciais que a compõem.

Informações: https://www.inpa.gov.br/cpca/areas/hortalicas.html

Capuchinha




É comestível, com sabor fresco e picante, semelhante ao do agrião, podendo as folhas e flores serem consumidas em forma de saladas. Seus frutos podem ser preparados como alcaparra, com água e sal.

Planta da família das Tropeoláceas, também conhecida como agrião-do-méxico, agrião-grande-do-peru, agrião-maior-da-índia, capuchinha-de-flores-grandes, capuchinha-grande, chagas, flor-de-chagas, capucina, capuchinho, chagas-de-flores-grandes, chagas-da miúda, cinco-chagas, cochlearia-dos-jardins, coleária-dos-jardins, curculiare, flor-de-sangue, mastruço, mastruço-do-peru, nastúrcio, nastúrio, sapatinho-do-diabo.

Informações: http://www.plantasquecuram.com.br/ervas/capuchinha.html#.Vf7Ci99Viko

Peixinho-da-horta



Hortaliça conhecida como lambari da horta, originária da Europa e da Ásia, mas se adaptou muito bem ao Brasil. Em Minas Gerais, é mais comum em regiões de clima ameno. Na Europa, as pessoas a usam mais para decoração.

Informações: http://redeglobo.globo.com/globominas/terrademinas/noticia/2014/08/chef-ensina-receita-com-hortalica-conhecida-como-lambari-da-horta.html

Jambu




O uso do jambu na culinária é indispensável nas receitas típicas do Pará, entre elas o tacacá, que leva o tucupi, caldo amarelado extraído da mandioca; goma de amido; jambu cozido; e, para terminar, alguns camarões. A iguaria é servida bem quente e vendida em barracas de rua em Belém. Também é usada em cachaças.

O jambu aumenta a salivação e causa uma leve dormência na língua, graças a uma substância chamada espilantol, que está sendo estudada pela indústria farmacêutica e de cosméticos, por causa de seu possível efeito anti-inflamatório e anestésico. De certo, é o efeito no paladar, que está mais que aprovado.

Informações: http://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2013/12/jambu-e-hortalica-indispensavel-mesa-do-paraense.html

Clitória ternatea



Da mesma família do feijão e da ervilha, a Clitoria ternatea é originária da Ásia tropical e hoje está presente na América do Sul e Central, China, Índia e Sudeste Asiático. No Brasil, a planta é mais conhecida como cunhã e mais usada como forrageira, sendo considerada o feno tropical. Já na cozinha é praticamente ignorada.

As folhas também são comestíveis, assim como as vagens bem jovens. Porém, o maior atrativo são as flores e nem tanto pelo sabor, já que são neutras, mas pela cor incomum e finalidades terapêuticas.

Rica em fitoquímicos, a infusão das flores é hepatoprotetora e antidiabética e o suco é usado tradicionalmente na medicina ayurvédica para curar picadas de insetos e doenças de pele, só para citar alguns exemplos.

Informações: http://blogs.estadao.com.br/paladar/a-flor-azul-do-feijao-borboleta/

E aí, conhece mais alguma PANC? Vai começar a usar alguma dessas plantas? Compartilhe com a gente!

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