Mil sóis, os hibakusha e a responsabilidade dos cientistas

Por Kátia Kishi*

Texto originalmente publicado na revista ComCiência, do Labjor/Unicamp





O dia começou seguindo uma rotina normal para a população que vivia na capital de Hiroshima, no Japão, no dia 6 de agosto de 1945, apesar dos percalços que civis de nações em guerra passam, como a falta de suprimentos e medo constante de ataques. Os mais desconfiados estranhavam há dias os sobrevoos americanos pela cidade, avisados com alarmes antiaéreos, mas sem sinal de destruição, mesmo com informações de que Hiroshima, cidade industrial com bases militares e um importante porto, estava na lista de ataques americanos. Alguns mais temerosos esperavam o fogo das bombas incendiárias que eram lançadas em Tóquio pelo exército dos Estados Unidos durante a campanha do Pacífico e destruíam as construções de madeira e papel japonesas, estratégia que durou até o dia 15 de agosto de 1945, data de rendição total do Japão aos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas nada disso aconteceu em Hiroshima. Naquele dia 6 de agosto, o céu estava limpo, sem alarmes antiaéreos e as vidas seguiam seu cotidiano, como de Kunihiko Bonkohara. Na época, menino de cinco anos e caçula da família, ele vivia com seu pai, sua mãe e uma irmã na capital de Hiroshima. Ele também tinha outro irmão e outra irmã, mas esses estavam estudando no interior da província.

Em sua visão de criança, o dia 6 de agosto começou com a sua irmã indo para a escola, como sempre, e uma decisão que, sem saber, salvaria sua vida: seu pai proibiu sua ida para o trabalho com sua mãe, porque ele poderia atrapalhá-la no serviço de voluntariado do governo. Logo, Bonkohara acompanhou seu pai, que trabalhava em um escritório de construção próximo de sua casa: “Dentro do escritório, meu pai estava em pé frente à mesa. De repente, veio um clarão, muito, muito grande. Meu pai me puxou para debaixo da mesa e se agachou em cima de mim e na hora alguma coisa explodiu muito forte. O escritório quebrou. A janela também, porta também... caíram em cima da mesa. Meu pai tirou as madeiras, levantou, me puxou e nessa hora vi que ele estava sangrando muito. Sangrava os pés, braços... tudo”, lembra Bonkohara, em um português ainda carregado de sotaque.

Um batalhão de cérebros

Às 8h15 daquela manhã, o clarão com estrondo que mudou a vida dos japoneses e da história mundial vinha da bomba nuclear de urânio Little Boy lançada pelas forças armadas dos Estados Unidos. Três dias depois, a bomba nuclear de plutônio Fat Man também foi lançada em outra cidade japonesa, Nagasaki. As bombas atômicas fizeram parte do projeto Manhattan, primeiro grande projeto que reuniu os mais renomados cientistas e técnicos (entre eles 20 ganhadores do prêmio Nobel), liderados pelo físico J. Robert Oppenheimer, que coordenava pesquisas nos centros universitários de Columbia, Princeton, Chicago e Berkeley, nos Estados Unidos.

O projeto custou, na época, US$ 2 bilhões e, inicialmente, as bombas seriam lançadas na Alemanha nazista antes do fim da Segunda Guerra Mundial, destino escolhido pelo contexto político e pelos rumores entre os cientistas e estadistas de que os alemães estavam próximos da conclusão de uma bomba atômica, liderada pelo alemão laureado com o Nobel de física de 1932, Werner Karl Heisenberg. Os rumores se intensificaram quando o governo alemão proibiu a exportação de urânio das minas da Tchecoslováquia, após os físicos alemães Hahn e Strassman descobrirem a fissão nuclear em 1938, segredo transmitido para o ocidente pelo dinamarquês Niels Bohr. Ele se refugiou nos Estados Unidos com codinome de John Baker e colaborou no Projeto Manhattan em Los Alamos.

A preocupação pela existência de uma bomba atômica alemã era tão forte que motivou o excêntrico húngaro Leó Szilárd a procurar o renomado físico alemão, refugiado nos Estados Unidos, Albert Einstein, para assinar uma carta ao presidente Roosevelt, dos Estados Unidos, alertando-o sobre os perigos da posse de tal arma pelos alemães e sugerindo que solicitasse ajuda dos físicos da área nuclear. No entanto, a carta teve pouca influência e o projeto Manhattan só ganhou força após o ataque japonês à base naval americana de Pearl Harbor, que matou dois mil americanos no dia 7 de dezembro de 1941 e colocou os Estados Unidos oficialmente em guerra contra as nações do Eixo.

Nesse grande projeto, os Estados Unidos estavam em condições privilegiadas em comparação com a Alemanha – após a rendição, descobriu-se que ela nunca esteve perto da construção da bomba –, começando pelo fato de que o país havia recebido uma grande “fuga de cérebros” que se refugiavam da guerra, além de ter o apoio do Canadá e da Inglaterra. O filósofo da ciência na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Antônio Videira, explica que os Estados Unidos demoraram a entrar na guerra e, então, eram mais ricos que a Alemanha, a qual tinha muitas frentes de batalhas e fronteiras que impediam condições industriais para a construção de uma bomba atômica.

O projeto foi mantido em sigilo em uma grande cidade-laboratório instalada no deserto americano. A força-tarefa estava tendo bons resultados, mas em 7 de maio de 1945, a Alemanha se rende e o Eixo está próximo da derrota. A rendição alemã não parou ou desacelerou o projeto, mesmo com a petição assinada por 69 cientistas sobre as possíveis consequências da radiação e uma nova carta de Szilárd encaminhada ao novo presidente americano Harry Truman. “O desenvolvimento do poder nuclear fornecerá aos países novos meios de destruição. As bombas atômicas à nossa disposição representam apenas o primeiro passo nessa direção e quase não existirá limite para o poder destrutivo que se tornará disponível no curso de seu desenvolvimento futuro. Assim, uma nação que assume o precedente de usar essas forças da natureza recém-liberadas para fins de destruição pode ter de assumir a responsabilidade de abrir a porta para uma era de devastação em escala inimaginável”, diz trecho da carta reproduzido por Ronaldo Mourão em artigo na revista Scientiae Studia.

O apelo foi ignorado e em 15 de julho de 1945, 150 cientistas se reuniram no deserto do Novo México para testar a explosão da bomba de plutônio Trinity. Com o registro de sucesso, o destino das outras duas bombas mudou para o Japão, que ainda não tinha oficialmente se rendido. As cidades pré-selecionadas para os bombardeios foram Hiroshima, Kokura (principal arsenal), Kioto (centro industrial) e Niigata (com porto, siderurgias e refinarias). Porém, Kioto foi substituída por Nagasaki devido à sua importância histórica e religiosa, que, por sua vez, só foi atingida porque Kokura tinha baixa visibilidade no dia 9 de agosto de 1945, o que gerou a expressão japonesa “sorte de Kokura”.

Chuva negra

Longe de imaginar a história e as estratégias por trás do clarão e do estrondo dos “mil sóis” que presenciou, ainda no dia 6 de agosto, Bonkohara foi se lavar no rio atrás do escritório e voltar para casa com seu pai. No trajeto, viu a cidade em fogo e sob uma chuva negra com enormes gotas de radioatividade e fumaça, seguida pelo caminhar dos “fantasmas de Hiroshima”: “Eu lembro. A chuva terminou com bastante gente machucada fugindo para fora da cidade. Em frente de casa, tinha bastante gente fugindo. Todas essas pessoas tinham o cabelo queimado, rosto preto e vermelho, roupas queimadas, braços dobrados, tudo pendurado na pele... aí, devagar... devagar... andavam”.
Chegou a noite e nem a mãe ou a irmã de Bonkohara voltaram para casa. No dia seguinte, o menino saiu com seu pai para procurá-las pelas ruas. Sem sucesso, eles só encontravam mais pessoas feridas e muitos corpos espalhados pelas ruas. Próximo de onde caiu a bomba, o menino olhou o rio sobre a ponte Aioi, onde também só vislumbrou mais corpos se acumulando na superfície. Dias após o ataque, Hiroshima continuava em chamas, mas agora por causa dos corpos acumulados e incinerados pelos soldados japoneses.

Os ataques de Hiroshima e Nagasaki mataram cerca de 340 mil japoneses imediatamente após os bombardeios e no decorrer dos cinco anos seguintes, mas a conta pode se estender se forem considerados o sofrimento e os problemas de saúde que a radiação gerou para os hibakusha, como são chamadas as vítimas da bomba.

Sete décadas após os ataques, os japoneses e americanos ainda têm visões bem distintas sobre eles. Segundo pesquisa do Instituto Pew Research Center, realizada em fevereiro de 2015, 56% dos americanos consideram justificável o lançamento das bombas, enquanto 79% dos japoneses afirmam que não havia justificativa. O governo americano sempre alegou que os ataques adiantaram o fim da Segunda Guerra Mundial e forçaram a rendição dos japoneses, salvando centenas de milhares de soldados americanos. Porém, segundo Mourão, estudos indicam que o massacre tinha o objetivo de impressionar os soviéticos sobre o poderio bélico americano, evitando a tentativa de invasão soviética na Ásia, como ocorreu na Alemanha rendida, além de aproveitar a oportunidade para medir o poder de destruição das novas armas com os ataques em cidades que ainda não tinham sofrido com bombardeios.

Hibakusha, vítimas da bomba

Bonkohara se mudou com seus irmãos para Shimane-ken, enquanto seu pai continuou trabalhando em Hiroshima. Anos depois, ele e os irmãos voltaram a morar com seu pai. “Naquele tempo, peguei tuberculose. Depois o médico me diagnosticou com problema de coração... Não tinha futuro”. Hoje ele se considera saudável. Com o Japão em reconstrução, resolveu procurar outro país para morar, imigrando sozinho para o Brasil em 1961.

Em terras brasileiras, Bonkohara não viu seu pai, que estava no Japão, sofrer e falecer com câncer de estômago em 1967, assim como várias outras vítimas por causa do contato com a radiação. Setenta anos após a primeira explosão, um relatório da Cruz Vermelha destaca que os hibakusha continuam sofrendo com o impacto psicológico, como depressão e estresse pós-traumático, que se acentuam próximo das datas de memória dos eventos. Também há uma alta incidência de leucemia e outros tipos de câncer e, se a exposição à radiação tiver contaminado os genes dos sobreviventes, os seus descendentes também podem desenvolver problemas de saúde.

Além das marcas da tragédia, a possibilidade de desenvolver doenças também marcou as vítimas com uma carteira de hibakusha. A segregação necessária para o controle e tratamento gratuito das vítimas no Japão também trouxe discriminação social. Algumas famílias, por exemplo, impediam matrimônios com um hibakusha por temer as consequências para os descendentes, e muitas vítimas escondiam sua condição.

No Brasil, os hibakusha sofriam com mais um problema. Fora do país de origem, eles não tinham auxílio ou acesso gratuito aos medicamentos fornecidos pelo governo japonês. Nesse contexto, surgiu em 1984 a Associação Hibakusha Brasil pela Paz, criada por Takashi Morita e outras 17 pessoas. Inicialmente, a associação mantinha 270 hibakusha associados. Hoje 104 ainda estão vivos. Como resultado dos esforços da associação, as vítimas no Brasil recebem ajuda de custo e acesso a atendimento médico pelo governo japonês. Bonkohara, a convite de Morita, auxilia em algumas atividades da associação. Segundo ele, a cada dois anos, médicos japoneses vêm ao Brasil para acompanhar a saúde dos hibakusha. Entre outras atividades, a associação também oferece palestras em escolas para divulgar as consequências das armas nucleares e promover a paz.

A responsabilidade social do cientista

“A questão importante que sempre se deve pensar nessa situação é a responsabilidade social do cientista, porque muitas vezes a gente não imagina o que pode virar a pesquisa teórica”, reflete o físico da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Adilson de Oliveira.
No entanto, ele argumenta que as “responsabilidades” devem ser atribuídas com cautela, porque até mesmo Einstein, que não esteve diretamente envolvido no projeto Manhattan, ficou associado ao desenvolvimento da bomba atômica pela carta assinada a pedido de Szilárd e por ter deduzido a fórmula E=mc² quarenta anos antes, a qual foi aplicada para fins militares. A ligação entre o cientista e as consequências de sua teoria foi tema de capa da revista americana Time (01/07/1946), que colocou sua imagem com uma nuvem em formato de cogumelo (como o da bomba nuclear) explodindo sua fórmula mais popular.




Essa associação de Einstein com a bomba também é considerada equivocada pelo filósofo da ciência da Universidade de São Paulo (USP), Osvaldo Pessoa Jr., que defende a importância de reflexão sobre “fato” e “valor” na ciência. “A visão mais tradicional do positivismo argumenta que são duas coisas diferentes e que o cientista precisa ter responsabilidade. Mas revelar um fato em si não tem valor. O fato é só uma extensão de como o mundo é e a gente está aqui para descobrir isso. O valor está na hora de decidir o que se vai fazer com aquela descoberta e aí, segundo essa visão tradicional, o cientista tem a responsabilidade de apoiar ou ir contra a aplicação baseada no conjunto de fatos que ele revelou”, avalia.

Sua defesa se aplica à teorização atômica, que também trouxe benefícios para sociedade, mas não se estende aos cientistas envolvidos no projeto Manhattan, por não se tratar mais de um “fato” e sim da “aplicação” da ciência, em que os cientistas estavam cientes do que construíam. Porém, tanto Pessoa Jr. quanto Videira argumentam que é complicado avaliar a responsabilidade que os cientistas tiveram no acontecimento, pois foram decisões tomadas em outro contexto. “Imagine você, leitor, o que faria em 1941 se fosse um cientista convidado para um projeto de fabricação de uma arma como parte do esforço de guerra, considerado justo. Acho que mesmo alguém mais consciente, politizado, talvez embarcasse nessa. Mas, por outro lado, quando a bomba é jogada você vai se arrepender. É uma contradição, o ser humano é contraditório”, reflete Pessoa Jr. Na mesma linha, Videira explica que a questão não deve ser analisada “preto no branco” e sim de forma mais “cinza, que é a cor do mundo”, podendo ser exemplificada pelo remorso que alguns cientistas, como Oppenheimer, declararam.

Videira discute que esse remorso demonstra uma dificuldade dos pesquisadores em lidar com algumas alianças necessárias para se produzir ciência, e nos Estados Unidos, são fortes as alianças militares, em termos financeiros. “O problema é que o cientista tem muito pouco espaço de manobra para tomar decisões que ele ache melhores para si e para sua ciência. Eu estou falando na comunidade científica como um todo. Passada a guerra, a questão é: em que medida a nossa contribuição para o projeto Manhattan e para outros projetos militares não vai diminuir ainda mais a nossa autonomia, a nossa capacidade de decidir os projetos que queremos fazer, o financiamento que queremos receber, os resultados desses projetos que consideramos mais adequados, mais verdadeiros e assim por diante. Ou seja, eu estou propondo fundamentalmente que a gente não analise sobre o ponto de vista da moral e sim pelo que leva o cientista a fazer parte disso. Acho que, fundamentalmente, o que leva é o fato de que, com o passar dos anos, a ciência está ficando cada vez mais cara, mais complexa e dependente de recursos financeiros que não são conseguidos sem que haja essa interação, esse diálogo e essa relação direta com o governo, pouco importa qual”.

Em exemplos menos extremos que a bomba, Pessoa Jr. levanta o envolvimento de cientistas na indústria farmacêutica ou na biomedicina. “O cientista faz uma pesquisa interessado em descobrir um problema, mas a produção de uma nova droga pode fazer com que a companhia queira maximizar o lucro e isso pode ter consequências sociais que o cientista pode considerar indesejável”, avalia. De forma romântica, Videira defende que se o pesquisador consegue vislumbrar consequências negativas de sua pesquisa, ele deveria desistir. “Eu não acredito muito no argumento da ciência pela ciência, acho muito dúbio. Se a pessoa tiver o mínimo de certeza de que aquilo pode gerar algum tipo de dificuldade para a humanidade, para outras pessoas, eu acho que deve desistir, porque existem outros problemas igualmente interessantes; não apenas aquele problema para o qual ele se dedica”.

Similar a essa ideia de responsabilidade, Oliveira lembra o caso de um colega, Eric Fawcett, físico da Universidade de Toronto, no Canadá, que liderava a organizaçãoScience for Peace. “Ele fazia questão de assinar em todos os seus artigos um endosso dizendo que aquele conhecimento que estava no artigo não deveria ser usado para fins militares. O que a gente trabalhava, não dava para imaginar que ia ter alguma aplicação, uma vez que era uma pesquisa muito básica. Mas era uma questão política dele, marcar posição sobre isso. Então, acho que isso é uma questão importante, e muitas vezes o cientista não pensa nas suas consequências”.

* Kátia Kishi é jornalista, com especialização em jornalismo científico.

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